Caras leitoras e leitores, vou lhes fazer três perguntas. Quem és tu? O que você quer para o seu futuro? Qual é o seu maior perrengue? Sabemos que você vai encontrar lembranças boas e ruins que respondem essas questões. Da mesma forma, essas perguntas são respondidas através das 100 páginas do Trabalho de Conclusão de Curso em Psicologia de Jesse Rodriguez Cardoso, intitulado “Trajetos de Rogério (s): escrevivências de um estudante periférico que na descortina-ação da cidade (se) encontra com a população em situação de rua”.

Temos a tradição de noticiar no Jornal quando alguém conclui um trabalho que fez conosco. Essa publicação é o reconhecimento do quanto nós influenciamos a universidade e do quanto ela nos influencia. Por isso, pedimos que os trabalhos feitos no Jornal sejam construídos em diálogo, e não só sobre a gente. Desta vez, como sinal de respeito, Jesse apresentou o seu TCC primeiramente na nossa reunião quinzenal antes da apresentação formal na universidade, para verificar se o grupo concorda com o que foi falado ou não. E nós gostamos bastante do trabalho, nos enxergamos nele. Depois o entrevistamos para conhecer melhor os seus trajetos nesta cidade.

Michel – Você pode falar mais do teu trabalho?

Jesse – O meu trabalho é uma escrita literária das minhas vivências desta cidade, que partem da Lomba do Pinheiro e chegam ao centro. A partir da periferia apresento um mundo regido pela oralidade e principalmente os raps dos anos 90.

Charlote – Tu escreve em primeira pessoa?

Jesse – Não, eu criei um personagem chamado Rogério, baseado na música dos Racionais Mc’s “Fim de Semana no Parque”, em que ele é assassinado. Só que ao invés de trazer um personagem morto eu dou vida a esse personagem através da minha experiência. E ao mesmo tempo trago de como a juventude negra, pobre e periférica morre muito cedo. Seja por causa da violência da polícia, ou seja pela violência do tráfico. Mas eu inverto isso trazendo vida a esse personagem a partir do que vivi.

Michel – Bah, cheguei a me arrepiar agora. A parada é forte e a batida é pesada. Até porque, sabe, o Rogério foi a minha primeira lágrima. Da perda de um grande amigo que foi para outro estado viajar. E o Rogério, quando falaram “mataram o Rogério” eu parei no pátio, fiquei no cantinho, e fiquei me perguntando como foi possível que fizeram isso daí.

Jesse – Foda, existem muitos Rogérios que têm esse fim. E é por isso que eu filtro as minhas vivências para que elas falem de experiências coletivas. A minha escrita parte do pressuposto de incomodar o estabelecido, incomodar os da casa grande. Porto Alegre é posta em análise. Uma análise que parte da periferia e se estende ao centro, não só ao centro geográfico, como também ao centro educacional, resultado de Rogério entrar na universidade.

Através de uma conversa com alguns autores Rogério conhece o processo histórico de formação de Porto Alegre e percebe o quanto o poder público privilegia os investimentos em regiões ocupadas pela elite, relegando o abandono estrutural à periferia pobre. Percebe que a sua população não tem garantidos vários direitos constitucionais, como o de ir e vir, plasmado pelo alto preço da passagem dos ônibus públicos. Já num contexto micro, a família de Rogério foi expulsa do terreno que morava há mais de 20 anos por corrupção do advogado que defendia sua causa e acabou aceitando o suborno do oponente, nem nessas situações o rico deixa de ser patrão e o pobre peão. Esse é só um exemplo de muitos em que o sistema judiciário serve aos ricos, e poucas vezes aos pobres. Desabrigados, encontraram moradia numa ocupação urbana, entre a Mapa e a Quinta do Portal, chamada Ocupação Santo Antônio. E é partindo dessa ocupação que Rogério começa a criticar o naturalizado na sua região. Para tanto, foi necessário um processo de descortina-ação de preconceitos que o constituíam. Ele não se limitou às narrativas-mantas estabelecidas de cidade que vivenciava, mas as descortinou, percebendo que muitas das verdades que elas carregam serviam para assujeitá-lo à servidão. Depois, analisando mais amplamente a cidade, estando no centro, percebe que as pessoas vivem de forma limitada Porto Alegre, que cada um tem o seu ponto de vista a respeito da urbe e esse ponto de vista faz parte de um território que carrega mantos que envolvem o certo e errado, que envolvem hierarquias socias e morais, as quais garantem prestígio ou desqualificação e que são orientadoras de práticas. Esses mantos que envolvem bolhas de realidades estão presentes nos diversos estratos sociais que constituem a nossa cidade e sociedade. E também são os responsáveis por criar identidades e diferenças. Os que estão nos lugares de poder são atravessados por discursos que estereotipam os que estão na margem, esses diferentes perdem a sua complexidade e são reduzidos a estereótipos. Esses discursos são amplamente divulgados nas mídias hegemônicas, os quais têm os seus efeitos na menor valorização de algumas vidas no imaginário social, e são responsáveis pela apatia em relação ao genocídio da População negra e pobre do nosso país.

Quando Rogério entra na Psicologia, e principalmente durante a ocupação do Instituto de Psicologia em 2016, percebe que existe uma balança universitária que só pesa a importância do saber branco e com estrutura europeia. Algo que o incomoda, então, a partir de uma crítica às psicologias hegemônicas que se acreditam universais propõe uma Psicologia Decolonial, a entendendo como uma balança que também valoriza outros saberes, os das negritudes, os dos indígenas, os das periferias, os da População em Situação de Rua, etc.

Quando Rogério entrou em contato com a Pop. Rua o seu imaginário era atravessado pelo estereótipo de que fossem apenas pedintes. Mas isso se desconstruiu quando começou a estagiar no Jornal Boca de Rua, onde presenciou um espaço potente de protagonismo da sua população e de valorização da Ruaologia, saber ligado à vida nas ruas. Lá ele percebeu também o quanto a universidade pode ser exploradora, quando usa vocês apenas para extrair conhecimento e não dá nenhum retorno. Analisando o papel da psicologia na família Jornal Boca de Rua propôs uma atuação enquanto amizade, uma amizade como produtora de regimes de autonomia e apoio à luta contra os preconceitos que existem contra vocês. Algo que o tocou foi que na luta por moradia vocês fizeram uma ocupação de um prédio no centro.

Então, da ocupação “Santo Antônio”, Rogério vivenciou a Ocupação do Instituto de Psicologia e observou a Ocupação da Pop. Rua “Zumbi só se for dos Palmares”.

Michel – Tenho um amigo que me convidou para conhecer a casa dele na Quinta do Portal. Fui na Papatuti, na fábrica de pães e bolos. Conheço muito a cidade através das pessoas e a maior sorte que eu tive foi conhecer as pessoas que conheci. O Jornal Boca de Rua foi uma das coisas boas pra mim. O curso de edição de vídeo também me fortaleceu. Eu fiquei sabendo, no bar do Jorge, quando tava morando na praça da Matriz ainda, que abriu uns cursos.

O Jornal Boca de Rua e o curso de Edição de Vídeo, a rua em si, eles me ensinaram a ser esse cara fraco que eu sou. Fraco naquele sentido de, para bebida sou um cara fraco, para ler um livro, para ver um filme, bah, eu começo a chorar, a emoção bate na hora. Mas se é para enfrentar um problema, vamô entrá pra dentro do sistema e já era. Tá de frente com a fome, hoje vai ser jejum, então tá, vamô vê até quando vai ser esse jejum. O cara urra de noite.

Quando eu tava na escola, morrendo de fome, nem tinha almoçado. Aí chegou um colega e falou pra mim que tava com a barriga doendo de tanto comer, e eu tava com a barriga doendo de tanta fome.

Jesse – Bah, isso da fome limita demais. Algo que tu diz, de aprender a ser fraco, eu também aprendi, um processo de também ser fraco. Porque ser forte lá onde eu morava era não estudar, era ser o machão. Né, é isso aí, né?

Michel – É… Tô te falando rapaz.

Jesse – Aí eu aprendi a ser fraco no sentido de valorizar os meus sentimentos, como homem. Aprender a estudar também, a começar a ler. O que fez com que eu entrasse na universidade… E lá na universidade tem regras que são diferentes das que tem na periferia e que são diferentes das que têm na rua. Aí, digamos, que aprendi essas regras da universidade, mas, ao mesmo tempo, estou mudando as regras, estou dentro de um movimento de possibilitar que as pessoas que venham da periferia ou que queiram fazer um outro tipo de escrita façam também, aí é uma escrita mais baseada nas experiências, como eu tinha falado. Dentro da universidade entrei em contato com a Psicologia, e como ser um profissional a partir dela. Uma das mudanças na universidade que busquei fazer nos espaços que ocupei foi de levar a rua pra lá. Tanto que levei o Anderson para fazer várias palestras, convidei a galera do Boca de Rua pra fazer várias palestras. No sentido de não só um especialista da universidade falar da rua, mas sim da galera da rua falar por si também.

Michel – O Rogério, nesse papel dele, bebia?

Jesse – Não, não.

Michel – E ele bebeu também na rua? Como é que é o Rogério em si? Por exemplo, se eu fosse botar o Michel, viveu na rua, não viveu? Em um clima periférico, da galera fazendo um samba, bebendo um gelo. E tu não teve esse laço com as pessoas daonde tu morava, na periferia que tu diz?

Jesse – Tenho, tenho sim.

Michel – De chegar num samba, num pagode?

Jesse – Sim, sim. Algo interessante é que o Rogério que estou falando, no começo do meu trabalho falo mais da periferia. E até a linguagem que o Rogério usa no começo é a da periferia, já no final é a da universidade. Eu mudo a linguagem, e faço isso justamente para mostrar como que para tu ser aceito na universidade tem que usar um tipo de linguagem. Se tu usar muito a linguagem da periferia na universidade tu sofre um processo de desvalorização, tipo “tu não sabe de nada, nem conhece o português direito”, já se tu usa muito a linguagem da universidade na periferia a galera vai te achar arrogante. Isso aí tá ligado a mundos, ou até a bolhas, que tem regras de como tem que falar, como tem que agir, o que tu tem que fazer para ser respeitado e valorizado e o que tu não pode fazer.

Charlote – Achei interessante isso o que tu falou, tu tem exemplos do que tem de diferente na periferia ou na universidade do que pode ou não pode fazer? Por um lado entendo o conceito, mas por outro, não consigo pensar nada de concreto.

Jesse – Isso é algo enraizado nas pessoas. Tipo o que o Anderson fala de gravidez na adolescência. Na periferia isso é muito comum, já que as pessoas não buscam construir uma carreira acadêmica, que demanda muito tempo e estudo. Elas vão escolher os trabalhos que estão disponíveis e que não demandem uma qualificação extra. Já na classe média/alta não é muito comum a gravidez na adolescência, porque essa fase é dedicada aos estudos. Isso faz parte da reprodução de privilégios ou desprivilégios.

Michel – É que nem assim, eu digo pra ti assim… Cara, uma vez me perguntaram o que significava uma escola pública. E eu respondi na hora, é uma fábrica pra criar marginal, uma escola pública. Porque dali, que que acontece na escola pública. Têm pessoas de vários lugares. Às vezes o mais pobre é o mais inteligente. Digo de experiência própria. Lembro que antes era eu, Lucimar, a galera toda estudando. Aí quando vê o Lucimar veio com um oitão, tinha só a coronha do oitão. E ele ficou o dia todo com aquela pressão de uma coronha de oitão no bolso, sabe. Aí a galera toda ficou com medo do Lucimar, pequeninho, novão, com 8-9 ano. “Bah, o Lucimar tá armado, tá armado”. Aí no final da aula, que ele era meu amigão também. Aí no final da aula ele pegou para mim e falou bem assim “ô Michel”. Eu digo “qual é meu?”, “nem oitão que nada, é só a coronha, é só para os mais velho não vir muito pro nosso lado”. Aí, depois disso o que que aconteceu? Eles vieram e simplesmente passou uma semana, duas, depois, eles veio com uma bombinha de maconha. Aí ali, já “qual é que era dessa galera?” Começemo a fumar uns beckzinho e pá. No começo, eu nem fumava, só olhava a galera, como eu era o mais novo. Só os meus irmãos mais novos que fumavam. Antes o Alex ainda morava comigo, na casa do meu coroa. Aí o colega disse assim “Ô Michel, olha o que eu achei aqui, um torresminho de 25 grama”, o Alex deu-lhe na casca “quando eu for no colégio eu tenho pra quem vender”. Eu digo, bah, já começou aí, automaticamente já tava acontecendo um tráfico ali.

Jesse – Eu trago isso no meu trabalho também, a questão do tráfico. Só que eu trago do racismo, de que eu como pardo sofri racismo na escola, por causa das características não-brancas. Aí eu trago que esse racismo não era feito com um personagem preto que crio, que se chama Adriano, ele era dono de uma boca de tráfico na Mapa e isso causava medo nos racistas. De como até o racismo tem os seus limites na periferia enquanto questão de poder.

Michel – Tu só vai saber quem é a pessoa de verdade quando tu der poder na mão dela. É daí que ela vai apresentar realmente quem ela é, tá ligado. Eu acredito que em vez de ver as pessoas que te humilharam com sentimento de ódio e de rancor, chegar e dizer assim pra elas “não faz mais, que é feio, não faz pras pessoas o que tu não quer que façam pra ti, simplesmente tu não te atravessa mais na minha frente, não tenta atrasar a minha caminhada e tal”. Porque tendo esse tipo de atitude, ao invés da pessoa te olhar e disser assim “bah, não gosto da cara desse cara”, ela vai olhar e dizer assim “bah, viajei no cara e o cara é tri gente fina pra caramba, o cara tá sempre de boa”. Aí, o que que acontece? Ao invés de tu fazer o mal pra aquela pessoa “vou te humilhar, vou te dar um tiro, vou te fazer qualquer coisa”, vai vim outra pessoa que gostava dessa pessoa que tu prejudicou e vai dizer assim “bah, aquele lá me pegou”, é o inimigo invisível, o Judas incolor. Ele tá ali do teu lado, mas tu não vê ele, ele tá só te coiozando, assim “uma hora vou te pegá, tu caiu”. Aí vai que numa hora tu tá descendo pra tua cazinha, nos beco escuro, nas viela, saí do nada e “pá”. Ninguém sabe, ninguém viu, e lá se vai um homem, e jaz um homem, isso aí é a lei da vida. Tu fez aquilo, vai dá toda a volta e vai voltar pra ti de novo, tá ligado. Se tu fez o bem aqui e a pessoa te contribuiu com o mal, pensa assim “bom, eu fiz o meu papel”. É por isso que eu procuro fazer o bem. Porque é desse jeito que acontece as coisas boas.

Jesse – Massa essa tua ideia de não retribuir a violência. Isso também tá ligado a ser forte e ser fraco. Às vezes é muito melhor ser fraco do que ser forte. Porque na escola pública periférica que estudei ser fraco era estudar e ser forte era não estudar.

Michel – Estudar, tu tá sempre estudando. Eu considero isto daqui uma aprendizagem, tá ligado. É uma aula, na realidade. Eu procuro filtrar tudo, quando chega de noite e vejo o que de bom aconteceu no meu dia. E este tipo de conversa, é uma conversa que tu vai tirar alguma coisa pra ti. E tu pode não prestar atenção na aula, mas o semblante da pessoa vai ficar na tua mente. Aí aquela imagem que tu tem na tua mente vai te fazer lembrar de outras coisas. Aí tu acaba sonhando com essa pessoa. Desde pequeno a minha mãe pensou, “O Michel vai sofrer muito nessa vida, então eu vou ir primeiro que lá de cima dou essa força pra ele”. Aí foi que tudo se encaixou, tá ligado, edição de vídeo, Jornal Boca de Rua, colegas e pessoas que eu conheço aí, um monte de gente querendo dá uma força, apoiá o cara. Tem vezes que tu tá na favela parecendo que tá tudo bem, aí quando vê tu toma um soco de um cara que sai do bar bêbado. Esse tipo de coisa eu não faço, posso tá tri bêbado, mas isso não faço. Os caras na rua perguntam se eu tenho um jornalzão na hora de vender, e fico pensando, diante das outras mídias aí, tá ligado. Tinha aquele jornal, o Jha, o Bah Tchê, o Jornal Boca de Rua foi o único que se manteve em pé diante dessa pandemia. E isso, exatamente, porque eu sou filho da água.

Jesse – Bah, o Jornal Boca de Rua faz um grande trabalho. Principalmente no seu impacto para toda a sociedade, ele faz um enfrentamento aos jornais hegemônicos que reproduzem imagens negativas dos Moradores de Rua, né. Passam a imagem de que vocês são pessoas sempre passivas e pedintes. E o Boca de Rua luta contra isso mostrando a visão de vocês, mostrando a complexidade das pessoas que constituem a vida nas ruas. Dessa forma, vocês quebram as correntes que aprisionam a sua população a imagens reducionistas e negativas que possibilitam violências.

Michel – Mas isso daí eu vou te dizer Jesse. Eles fazem uma posição negativa disso daí, mas depois botam numa novela um morador de rua. Aí eles querem mostrar o que um morador de rua passa sem eles ter vivido aquela realidade. É a mesma coisa que tu dizer, “eu não vou comer carne porque dá isto, dá aquilo”, mas aí tu vai lá e bota um desodorante que vai lá pra camada de ozônio. Aí tu pensa em não te destruir e acaba destruindo a nossa atmosfera. Uma coisa que não é só tua, é de todos.

Jesse – Então, tem muito essa imagem que eu chamo de estereótipo, que é isso, uma imagem criada por quem nem conhece a galera da rua. E essa imagem é usada para oprimir vocês, por exemplo, através de xingamentos.

Michel- Xingamentos elegantes, tais como, “esse é o novo jeito de pedir esmolas”. Aí eu digo “bah, não, tô te mostrando o meu trabalho. Vem de você querer colaborar ou não, seja você mais um colaborador, não um crítico!”. E é desse jeito que passamos a nossa informação aos leigos de espírito e de coração.

Charlote – Que é muito ligada à imagem do assaltante, muita gente confunde, acha que é tudo igual. Assaltante e morador de rua é a mesma coisa. Morador de rua assalta, então rola todo um medo e um estereótipo maior.

Jesse – Certamente. E tem isso também na psicologia, digamos, tratar vocês como objeto, como alguém que não importa o que pensa da pesquisa feita. Então, é isso o que crítico nesse trabalho, de fazer uma psicologia diferente, uma que valorize a galera da rua nas suas potencialidades, que escute a galera da rua e que faça um trabalho em conjunto com a galera da rua.

Michel – A palavra tem força, mas aí tu vai saber como conduzir a força da palavra. Tu pode chegar e estar vendo este daqui falando daquele ali e “oh, o que tu tiver pra falar fala pra ele”. Se tu vê uma pessoa falando mal da outra e ela não está presente, ao invés de apoiar a pessoa que tá falando negativamente da outra, num modo positivo, tu responde assim “fala dela quando ela estiver presente e não na sua ausência, porque agir dessa forma é trairagem”. Se houvessem mais pessoas com essa ideia o mundo seria bem melhor. Porque diminuiriam muitos atritos familiares, políticos e mundiais.

Jesse – Que ideia massa Michel! A palavra tem muita força. Por exemplo, não seria legal que tivessem mais projetos como o Boca de Rua e o Amada Massa?

Michel – Com certeza. Se tivesse uma estrela cadente que eu tivesse que fazê um pedido. Eu ia dizer que quero inventar um jornal da minha comunidade. Porque ali ninguém tem nojo nem nada. Aí tu distribui e acaba gerando outro tipo de renda pra outras pessoas. Ou uma rádio que tu vai tá dentro de casa e tem uns autofalante espalhado na comunidade. Fora um filme também.

Jesse – Algo que trago é que eu falo muito de mim nesse trabalho. Aí quando questiono a psicologia, questiono o meu lugar também, questiono a universidade. Aí de como seria legal se mais pessoas se juntassem nisso de ajudar vocês a construírem esses projetos, de construírem novos dispositivos, novas formas de trabalho, ou de formação de coletivo. E para isso a galera da universidade precisa desconstruir os seus preconceitos e enxergar a complexidade que constitui vocês. Acho que esse é o primeiro passo para termos uma sociedade melhor, em que todas as vidas importem. E isso que tu fala também Michel, de relações mais transparentes, é essencial.

Michel – Tu sabe que isso é uma coisa muito interessante Jesse. Eu com a minha experiência de vida, com estudantes, principalmente na Casa do Estudante, onde cuido carro. Eu vejo que teve uma gestão de uma galera super massa. A galera chegava “ô Michel, entra aí, vamô fazê umas videoconferência, comê uns rango”. Acesso livre eu tinha. “Entra aí Michel, vamô esquenta a tua comida”. Esquentava a minha comidinha, ia lá comprava, tinha um arroz, tinha um feijão. Até que um dia uma mente maldosa foi lá e fez fofoca pra diretoria. Aí os caras cancelaram o meu acesso. Do nada, “é que tão pensando que tu vai roubar alguma coisa”. E poxa vida, quanto tempo uso aquele espaço e nunca aconteceu nada disso brother. Aí vão atrasar a minha caminhada. “É, não dá mais pra entrar”. Eu fiquei tri de cara, porque eu nunca roubei nada deles, mas eles já me levaram várias coisas. Já me levaram um malote de jornal, que eu nem sei aonde foi parar. Eu tinha até um armário na casa do estudante.

Jesse – Eles te roubaram o jornal?

Michel – Bah, me levaram um malote de jornal, cara. Dois aros que a minha amiga tinha me dado, da frente e de trás. Eu digo “vou deixar aqui guardado e depois eu pego”. Daí quando fui ver “cadê meus aros?”.

Jesse – Bah, tu não pode entrar lá porque é acusado de ladrão e os caras que te roubam.

Michel – Bah, eu fiquei tri mordido. E várias pessoas querendo me comprar os aros e eu não quis vender porque ganhei da minha amiga. Aí quando vê os caras me levaram os bagulho. Bah, só tomo choque. Mas uma hora vai ter que dá certo. Ainda bem que faço uns serviços pro seu Vilmar e ganho uns troco. Tem uns aspectos negativos, mas tem positivos também. Esses dias tava conversando com o primo, Leandro, aí falei “ô primo vou pegar um dinheiro e ir na loja comprar um tênis novo”, aí ele “pra quê comprar tênis novo se tu ganha?”. Aí tava andando na rua esses dias e me deram um presente novo. Depois ganhei outro do cunhado. Aí já foram dois tênis.

Jesse – Tu pode me falar o teu apelido na rua? E como é esses apelidos na rua?

Michel – Cara, a galera de cima, da comunidade, uns me chamam de Michel, outros de Mickey. É Mickey, Michelangelo, Nego Micha e Michel Telô. Esses dias tava trocando ideia com um amigo meu. Esses dias achei uma capa do Mickey, aí botei na porta pra mostrar que eu sou o Mickey.

Jesse – E Michelangelo, por quê?

Michel – Desde pequeno eu sempre tive o dom de desenhar. Bah, eu desenhava muito. Uma vez eu achei um livrão, tinha umas folhas grandona. Cara, eu comecei a desenhar tanto, tanto, um desenho mais bonito que o outro. E em questão de matéria de colégio. E quando eu tinha que fazer a capa para um trabalho todo mundo queria fazer comigo. E eu escrachava os meus desenhos na parede. Tinha vez que eu ficava deitado e ficava admirando os meus desenhos. Só que tinha um tempo que meu pai não deixava eu desenhar quando fazia arte. Bah, ficava tri triste, pra caramba. Mas quando ele devolvia eu ficava tri feliz, desenhando, bem tranquilo. Gostava mais do que ver o Chaves na TV, sempre admirei o seu Madruga.

Jesse – Beleza, vou te chamar de Michelangelo.

Michel – E qual título podemos dar pra matéria?

Jesse – Bah, boa questão. Não sou bom com nomes.

Michel – Como nomear um trabalho que fala desse contexto, de Rogerinho, de sociedade, de faculdade…? Era uma vez Rogério… Tipo um conto de fadas baseado em fatos reais.

Jesse – Massa!