Número 63

Edição de abril, maio, junho de 2017.

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Eles eram cidadãos e não só moradores de rua

Uma barbárie. Deram cinco tiros num cara, Paulo Ricardo, 36 anos, colega nosso. Isso aconteceu na Praça da Matriz, onde vários moradores de rua estão acampados, em frente à Assembleia Legislativa e ao Palácio Piratini. Ou seja, num lugar que era para ter segurança 24 horas.
Além de colaborador do jornal, o Paulo Ricardo era um cidadão comprometido com a comunidade onde ele vivia. Ele guardava carros e vendia jornal, trocava ideia com todo mundo e todo mundo gostava dele.
Revoltado, o Boca de Rua pede uma investigação e se compromete em acompanhar o caso, para que os autores sejam descobertos e punidos.

Relatamos também que um outro integrante do jornal, Rodrigo “Pelé”, 33 anos, foi agredido essa semana por uma torcida organizada de futebol, enquanto ele estava trabalhando na sinaleira. Ele está atualmente em coma no hospital. Também exigimos esclarecimento sobre o ocorrido.

Enfim, lamentamos mais um caso relacionado ao sistema de saúde. No dia 16 de março, faleceu a Ana Lúcia, 50 anos, ex-integrante do Boca, a quem foi negado um atendimento decente no Vilanova. “Ela vai morrer de qualquer jeito”, explicou o médico aos próximos que a estavam acompanhando.

Formatura da EPA

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É com muito orgulho que fomos assistir à formatura do Jackson, integrante do Boca de Rua, e de mais três estudantes da Escola Porto Alegre, que concluíram com sucesso o ensino fundamental.

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No seu discurso, Jackson agradeceu os professores e funcionários da Escola, assim como o Boca, o MNPR, e todos os colegas, amigos e coletivos que acompanharam seu percurso.

Churrasco de fim de ano!

 

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Para fechar o ano e comemorar os 16 anos do jornal, os integrantes do Boca de Rua se reuniram para comer um churrasco na aldeia Harmonia. Agradecemos a hospitalidade dos moradores da aldeia que nos acolheram de improviso depois de encontrarmos fechado o GAPA – onde a confraternização tinha sido marcada.

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É importante ressaltar que a festa foi quase integralmente financiado pelo próprio grupo, através de vendas coletivas do jornal e dos postais. Um passo importante para a autonomia do Boca!

Histórias que se cruzam

Mais um dia de luto para o Boca. A Nega Rita, integrante do grupo há muitos anos, se foi. Vem aqui em sua homenagem o poema de que ela gostava tanto e sempre recitava na sinaleira.

Acordei cedo
E já olhando para o céu
Pedi a Deus que protegesse
Todos os amigos meus
Quem não tem fé
Não chega a lugar algum
A minha história é única
Em meio ao zum, zum, zum
De onde eu vim
Os ratos faziam festa
À beira do esgoto sujo
Uma sanga podre aberta
Mas com fé minha mãe me tirou dali
Daí em diante o mundo passou a se abrir
Sempre estudei, tive esta oportunidade
Mas hoje trabalho com o povo
Das periferias e comunidades
É o pessoal da rua
Fazendo sua história
E o jornal Boca de Rua
Registrando essa memória
Mangando no asfalto
Na sinaleira
Viver na rua não é brincadeira
Respeito, justiça e paz
Nós vamos buscar
Jornal Boca de Rua
Veio pra revolucionar!!!

(Poesia escrita por Déko Ramires, do Camp PopRua, que participou de uma reunião do jornal e ofereceu como presente ao grupo)

José Mauro, Lanceiro Negro 2016

“Sou descendente dos Lanceiros Negros”. Era assim que José Mauro – que morreu de uma parada cardíaca em novembro passado – se apresentava. Ele sabia tudo sobre os lanceiros, sabia tudo sobre a escravidão e os quilombos. Era muito inteligente e tinha orgulho do seu passado.

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Mas além de protestar contra o racismo e a injustiça da história ele também gostava de um pagode, de uma festa. Tanto que, embora tivesse uma casa na Vila Nova Chocolatão,  preferia ficar mais na rua. Seu lugar predileto era o canteiro em frente ao bar da Neuza, na Praça Garibaldi. Ali tem uma pedra grande onde ele costumava sentar e cantar. O pessoal até brincava que um dia ia escrever o nome dele na pedra. E vamos fazer isso. Vai ser o monumento para o Zé Mauro, o primeiro da cidade que homenageia um morador de rua.